Descrição Description

Cédula Defensiva de Bouro

A Trincheira de São João do Campo está localizada numa pequena península rodeada pela albufeira da barragem de Vilarinho das Furnas, abastecida pelas águas do Rio Homem. Este local compreende um legado histórico que perpassa muitos séculos numa diacronia histórica que deixou vestígios ao longo do tempo.

Vista para a albufeira de Vilarinho das Furnas e Portela do Homem
Vista para a albufeira de Vilarinho das Furnas e Portela do Homem @Luís Borges

A Trincheira está posicionada nas proximidades da entrada da Mata de Albergaria e adjacente à milha XXIX da Geira. A denominada Via XVIII do Itinerário de Antonino, cujo traçado fazia a ligação entre Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astorga) foi uma das vias de comunicação terrestres mais usada durante o domínio romano na Hispânia.

Perspetiva do muro da trincheira de São João do Campo
Perspetiva do muro da trincheira de São João do Campo @Lantana, Lda

“A Portela do Homem foi a mais importante zona de trânsito medieval entre o interior galego e a região bracarense, servida pela antiga via romana XVIII ou Via Nova, designada localmente por “Jeira”, nome que deriva precisamente da obrigação das populações locais terem que assegurar a sua manutenção, através das “jeiras”, como referem as “Inquirições” (Almeida, 1968:197). É a única passagem que nas “Inquirições” de 1220 se refere como devendo ser defendida, então a cargo dos moradores de Chorense, Goães, Valdozende, Rio Caldo e Chamoim (PMH.Inq.1220:95 e 96). Em 1258 parece reconhecer-se-lhe uma importância acrescida, nomeando-se para a sua defesa moradores de 13 freguesias – Carvalheira, S. João do Campo, Covide, Rio Caldo, Freitas, Valdozende, Goães, Vilela, Seramil, Chorense, Moimenta, Balança, Vilar e S. Mateus, ficando Chamoim e Freitas com a responsabilidade de defender o castelo de Bouro (PMH.Inq.1258:417 a 424). A defesa da Porta da Amarela, passagem natural que identificamos com a portela de Muro/Casarotas, era da responsabilidade dos moradores de Gondoriz e Cibões (PMH.Inq.1258:431 e 432).” (L. Fontes, 2011)

Os esforços constantes, e o carácter belicista das comunidades, foram reconhecidos pelo Rei Afonso II que conferiu privilégios aos moradores do concelho de Terras de Bouro e do extinto concelho de Santa Marta de Bouro, bem como, do debelado Couto de Souto e Couto de Mosteiro de Santa Maria de Bouro. Não obstante, isentos do serviço militar como privilégio régio, estavam obrigados a zelar e a defender o Castelo de Bouro e a fronteira da Portela do Homem.

Relativamente ao Castelo de Bouro existem muitas dúvidas quanto à sua localização exata, devido à ausência de vestígios. O sítio que reúne mais consenso entre os autores, parece ser em Chã do Castelo, em Sta. Isabel do Monte e a fortificação seria “um dos castelos de madeira que na arquitetura medieval precederam os castelos de pedra no sistema de defesa feudal.” Posteriormente, as inquirições de 1258 asseveram novamente a importância e as “obrigações da população de Boyro em dar uma permanente assistência e manutenção ao Castelo de Bouro…considerado um marco essencial na defesa destes espaços raianos, ao qual nessa época se associou o Mosteiro de Santa Maria de Bouro”.   No século XVI, o Castelo de Bouro já não vem mencionado nos documentos, o que revela o seu progressivo abandono fruta de uma progressiva modernização dos engenhos bélicos.

Desde então, este corredor natural de grande importância geopolítica foi largamente utilizado durante todo o período Medieval e Moderno e incluído nos itinerários privilegiados pelos comerciantes e pelos peregrinos que caminhavam entre Braga e Santiago de Compostela. O caminho ainda hoje se encontra muito bem conservado, especialmente no interior da Mata de Albergaria, denunciando a sua permanente utilização durante todo o período medieval e moderno, até aos nossos dias.

Nas proximidades da Trincheira de São João de Campo encontram-se vestígios de outras estruturas de apoio aos sentinelas que ficavam a vigiar o Posto. Estas edificações, que estão documentadas, seriam a Casa das Peças, que servia para o armazenamento de guarnições bélicas, e a Casa da Guarda, que acolhia o guardião da Trincheiras. Esta célula defensiva controlada pelos habitantes de Bouro, conforme providência régia, seria controlada e coordenada pela Casa do Facho situada numa plataforma mais elevada, no monte Pinhote, com uma grande visibilidade para a zona de fronteira.  Paralelamente, do outro lado da linha de água, o Rio Homem, já na Serra Amarela, a proteção do corredor natural era assegurada pela passagem natural que identificamos com a Portela de Muro/Casarotas, que era da responsabilidade dos moradores de Gondoriz e Cibões (PMH.Inq.1258:431 e 432). (L. Fontes, 2011)

Foto das Casarotas na Serra Amarela
Foto das Casarotas na Serra Amarela @António Manuel Sousa

As Casarotas destacam-se num ponto altimétrico muito mais elevado, numa posição muito mais isolada e adversa, sobretudo no Inverno, e estas misteriosas construções composta por paredes de blocos graníticos e coberturas de largas lajas graníticas, no topo da Serra Amarela, talvez fossem a solução ideal de aquartelamento para sobreviveram aos temporais de neve e condições adversas. (F. Cosme; L. Borges, 2022)

Elementos Construtivos na Trincheira de S. João de Campo / Ruínas

O muro da trincheira

O muro da Trincheira de S. João de Campo delimitaria, em formato semicircular, toda a área N-NE da península onde, atualmente, está localizada. Teria cerca de 120 metros de comprimento, um metro de espessura média e, pouco mais de altura. A trincheira terá sido construída no tempo de D. João I e reparada nos reinados de D. João IV e D. João VI, e junto dela duas pequenas casas para abrigo das sentinelas do concelho de Terras de Bouro, e dos antigos concelhos de Santa Marta e do couto do Souto. (É importante perceber que a paisagem primitiva seria muito diferente da atual, que agora é composta pela imponente albufeira da barragem de Vilarinho das Furnas, cuja construção nos anos 60/70 alterou drasticamente a bacia hidrográfica do Rio Cávado).

Muro da Trincheira São João do Campo
Muro da Trincheira São João do Campo @Lantana, Lda

Casa da Guarda

A Casa da Guarda é um dos elementos que compõe a Célula Defensiva de Bouro e estaria localizada num sítio denominado Padrões de Cal, onde jaz parte de um padrão, na mesma península, numa posição muito próxima ao muro da Trincheira de S. João de Campo. A Casa da Guarda deveria acolher o guardião da trincheira, não sendo possível afirmar se esta estrutura é coeva ou posterior à construção da Trincheira de S. João do Campo.

Vista para as ruínas da possível Casa da Guarda
Vista para as ruínas da possível Casa da Guarda @Lantana, Lda

Casa das Peças

A Casa das Peças é uma das estruturas que compõe a Célula Defensiva de Bouro e as ruínas identificadas estão numa posição muito próxima ao muro da Trincheira de S. João de Campo. A Casa das Peças serviria para o armazenamento de guarnições bélicas, tais como as munições dos canhões. É uma estrutura de apoio aos sentinelas que ficavam a vigiar o Posto. Terá desempenhado um papel fulcral e de maior preponderância durante o período das Guerras da Restauração.

Possíveis ruínas da Casa das Peças
Possíveis ruínas da Casa das Peças @Lantana, Lda

Casa do Facho

A Casa do Facho é visível do ponto de localização do muro da Trincheira de S. João do Campo,  e está situada numa plataforma mais elevada, sobranceira ao vale do Rio Homem, numa posição privilegiada e estratégica.  Estaria localizada, no Monte Pinhote e assumia o controlo e coordenação dos restantes elementos defensivos, beneficiando de grande visibilidade para a zona de fronteira. Na base do monte, do lado direito, passa a Via Nova, também denominada de Geira, a Via XVIII do Itinerário Antonino que ligava Bracara Augusta e Asturica Augusta.

Vista panorâmica do Monte Pinhote onde se localizam as ruínas da Casa do Facho. Autor Luis Borges.
Vista panorâmica do Monte Pinhote onde se localizam as ruínas da Casa do Facho @Luis Borges

Bibliografia

AHM – Documentos relativos à Guerra da Restauração existentes na Câmara Municipal de Braga: In: “Boletim do AHM”, Lisboa, vol. 10 (1940) e vol. 11 (1941).

CAPELA, José Viriato (2001) Memórias e Imagens de Terras de Bouro Antigo, As Memórias Paroquiais de 1738 – Estudo Introdutório, Leitura e Fixação do Texto, Edição da Câmara Municipal de Terras de Bouro.

SILVA, Rosa Moreira da (2011) O Gerês – De Bouro a Barroso, Singularidades Patrimoniais e Dinâmicas Territoriais – 2.1 Estratégias Defensivas de Bouro a Barroso, p.88, Edições Afrontamento.

COSME, Fernando; BORGES, Luís (2022) A Região do Gerês e a Estrada da Jeira. Dialetologia, História, Arqueologia e Etnologia na Toponímia, p.127 e 256, Edição da Câmara Municipal de Terras de Bouro.

Bouro Defensive Cell

The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo is currently located on a small peninsula surrounded by the Vilarinho das Furnas reservoir, fed by the waters of the Homem River. This site comprises a historical legacy that spans many centuries in a historical diachrony that has left traces over time.

Vista para a albufeira de Vilarinho das Furnas e Portela do Homem
View of the Vilarinho das Furnas reservoir and Portela do Homem @Luís Borges

The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo is located near the entrance to the Albergaria Forest and adjacent to mile XXIX of the Geira. The so-called Via XVIII of the Antonine Itinerary, which connected Bracara Augusta (Braga) and Asturica Augusta (Astorga), was one of the most used land communication routes during Roman rule in Hispania.

Perspetiva do muro da trincheira de São João do Campo
View of The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo @Lantana, Lda

The Portela do Homem border was the most important medieval transit zone between inland Galicia and the Braga region, served by the ancient Roman road XVIII or Via Nova, locally known as ‘Jeira’, a name that derives precisely from the obligation of the local populations to ensure its maintenance through the “jeiras”, as mentioned in the ‘Inquirições’ (Almeida, 1968:197). It is the only passage that the ‘Inquiries’ of 1220 refer to as needing to be defended, then under the responsibility of the residents of Chorense, Goães, Valdozende, Rio Caldo and Chamoim (PMH.Inq.1220:95 and 96). In 1258, its importance seems to have been recognised, with residents from 13 parishes being appointed to defend it – Carvalheira, S. João do Campo, Covide, Rio Caldo, Freitas, Valdozende, Goães, Vilela, Seramil, Chorense, Moimenta, Balança, Vilar and S. Mateus, with Chamoim and Freitas being responsible for defending the castle of Bouro (PMH.Inq.1258:417 to 424). The defence of Porta da Amarela, a natural passageway that we identify with the gate of Muro/Casarotas, was the responsibility of the residents of Gondoriz and Cibões (PMH.Inq.1258:431 and 432). (L. Fontes, 2011)

The constant efforts and bellicose nature of the communities were recognised by King Afonso II, who granted privileges to the residents of the municipality of Terras de Bouro and the extinct municipality of Santa Marta de Bouro, as well as the subjugated Couto de Souto and Couto de Mosteiro de Santa Maria de Bouro. Nevertheless, although exempt from military service as a royal privilege, they were obliged to guard and defend the Castle of Bouro and the border of Portela do Homem.

There is much uncertainty surrounding the exact location of Bouro Castle, due to the absence of any traces. The site that seems to have gained the most consensus among authors appears to be in Chã do Castelo, in Santa Isabel do Monte, and the fortification would have been ‘one of the wooden castles that, in medieval architecture, preceded stone castles in the feudal defence system.’ Subsequently, the inquiries of 1258 reaffirm the importance and ‘obligations of the population of Boyro to provide permanent assistance and maintenance to Bouro Castle… considered an essential landmark in the defence of these border areas, to which the Monastery of Santa Maria de Bouro was associated at that time’. In the 16th century, Bouro Castle is no longer mentioned in documents, revealing its gradual abandonment as a result of the progressive modernisation of military technology.

Since then, this natural corridor of great geopolitical importance has been widely used throughout the Medieval and Modern periods and included in the itineraries favoured by merchants and pilgrims travelling between Braga and Santiago de Compostela. The route is still very well preserved today, especially in the interior of the Mata de Albergaria, revealing its continuous use throughout the Medieval and Modern periods, right up to the present day.

Specifically, in the vicinity of the The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo, there are traces of other structures that supported the sentries who guarded the Post. These buildings are documented as the Ammunition House, which was used to store military supplies, and the Military Guardhouse, which housed the guardian of the Military Barrier. This defensive cell controlled by the inhabitants of Bouro, according to royal decree, was controlled and coordinated by the Facho’s House, located on a higher platform on Mount Pinhote, with great visibility of the border area. At the same time, on the other side, in Serra Amarela, protection of the natural corridor was ensured by the natural passage that we identify as the Muro/Casarotas gate, which was the responsibility of the residents of Gondoriz and Cibões (PMH.Inq.1258:431 and 432). (L. Fontes, 2011)

Foto das Casarotas na Serra Amarela
Photo of Casarotas in Amarela Mountain @António Manuel Sousa

The Casarotas stand out at a much higher altitude, in a much more isolated and hostile position, especially in winter. These mysterious constructions, composed of granite block walls and large granite slab roofs at the top of the Amarela Mountain, were perhaps the ideal solution for barracks to survive snowstorms and adverse conditions. (F. Cosme; L. Borges, 2022)

Building Elements in The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo / Ruins

The Wall of The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo

The wall of The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo would have enclosed the entire N-NE area of the peninsula where it is currently located in a circular shape. It would have been about 120 metres long, one metre thick and slightly more than one metre high, built during the reign of D. João I and repaired during the reigns of D. João IV and D. João VI, along with two small houses to shelter the sentries of the municipality of Terras de Bouro and the former municipalities of Santa Marta and Couto do Souto. (It is important to note that the original landscape would have been very different from the current one, which consists of the imposing reservoir of the Vilarinho das Furnas dam, whose construction in the 1960s/70s drastically altered the Cávado River basin).

Muro da Trincheira São João do Campo
The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo @Lantana, Lda

The Military Guardhouse

The Military Guardhouse is one of the elements that make up the defensive cell of Bouro and was located in a place called Padrões de Cal, where part of a standard lies, on the same peninsula, very close to the ruined wall of the The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo. The Military Guardhouse would have housed the guardian of the trench, although it is not possible to say whether this structure is contemporary with or later than the construction of The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo.

Vista para as ruínas da possível Casa da Guarda
View of the ruins of what may have been the Military Guardhouse @Lantana, Lda

The Ammunition House

The Ammunition House is one of the structures that make up Bouro’s defensive cell, and the identified ruins are located very close to the wall of the The Trincheira (Military Barrier) of São João do Campo. The Ammunition House would have been used to store military supplies, such as cannon ammunition (similar to the replica), and was a support structure for the sentries who guarded the post. It would have played a key and increasingly important role during the Restoration Wars.

Possíveis ruínas da Casa das Peças
Possible ruins of the Ammunition House @Lantana, Lda

The Facho’s House

The Facho’s House is visible from this point and is located on a higher platform overlooking the Homem River valley, in a privileged and strategic position. It would have been located on Monte Pinhote and took control and coordination of the other defensive elements, benefiting from great visibility of the border area. At the base of the summit, on the right-hand side, runs the Via Nova, also known as Geira, the Via XVIII of the Antonine Itinerary, which connected Bracara Augusta and Asturica Augusta.

Vista panorâmica do Monte Pinhote onde se localizam as ruínas da Casa do Facho. Autor Luis Borges.
Panoramic view of Monte Pinhote, where the ruins of the Facho’s House are located @Luis Borges

Bibliography

AHM – Documentos relativos à Guerra da Restauração existentes na Câmara Municipal de Braga: In: “Boletim do AHM”, Lisboa, vol. 10 (1940) e vol. 11 (1941).
CAPELA, José Viriato (2001) Memórias e Imagens de Terras de Bouro Antigo, As Memórias Paroquiais de 1738 – Estudo Introdutório, Leitura e Fixação do Texto, Edição da Câmara Municipal de Terras de Bouro.
SILVA, Rosa Moreira da (2011) O Gerês – De Bouro a Barroso, Singularidades Patrimoniais e Dinâmicas Territoriais – 2.1 Estratégias Defensivas de Bouro a Barroso, p.88, Edições Afrontamento.
COSME, Fernando; BORGES, Luís (2022) A Região do Gerês e a Estrada da Jeira. Dialetologia, História, Arqueologia e Etnologia na Toponímia, p.127 e 256, Edição da Câmara Municipal de Terras de Bouro.

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